Anatomia de um apartheid social
Mais de 980 mil pessoas na Região Metropolitana de Salvador estão na linha de pobreza, com renda mínima ou inexistente
PATRICK BROCK
Na Vila Via do Metrô, no Calabetão, os barracos de papelão e madeirite dividem o espaço com um rio de esgoto e as muriçocas. Seus habitantes vivem da reciclagem de aço ou papelão e reclamam da falta de segurança, saneamento e empregos. Similar a outras comunidades no Brasil, a vila é um exemplo do apartheid (divisão) que mistura a velha pobreza, histórica, com a nova pobreza, da insegurança social da informalidade e da corrosão salarial. Os dados indicam que 44,09% da população da Região Metropolitana de Salvador tem renda per capita de até dois salários mínimos, enquanto 31,1% estão na linha da pobreza (renda média domiciliar de meio salário mínimo ou sem rendimento, de acordo com o IBGE), ou seja, mais de 980 mil pessoas.
Dados estatísticos e estudos apresentam uma Salvador dividida, de maioria pobre: enquanto a renda média mensal no Bairro da Paz (antiga Invasão das Malvinas e atualmente um aglomerado de casas de alvenaria, sem acabamento) é R$ 214, os moradores do Itaigara (bairro nobre e bem estruturado em termos de serviços públicos e área física) faturam R$ 3 mil. Embora Salvador tenha obtido avanços importantes em saneamento, com cobertura de sistema de esgotos em mais de 70% da cidade, os 50% mais pobres ainda contribuem com 15,7% do total da renda, enquanto os 10% mais ricos contribuem com 12,7% – configurando um quadro de concentração de renda.
O apartheid sóciorracial de Salvador divide a metrópole em esparsos núcleos ricos (ver infografia), convivendo com os núcleos pobres majoritários, onde a população está espremida, com serviços públicos deficitários e índices de violência alarmantes: um exemplo do apartheid, de acordo com o Departamento de Documentação e Estatísticas da Polícia Civil, pode ser aferido pela comparação das estatísticas da violência em dois bairros: em dezembro de 2005 foram cometidos 15 homicídios na região da 5ª Delegacia (Periperi, subúrbio ferroviário, a maior parte da população é pobre), enquanto na 14ª (Barra, de maior faixa de cidadãos ricos apenas um foi registrado. A maioria dos mortos tinha de 15 a 39 anos, era negra e com escolaridade até o nível fundamental. Ao mesmo tempo, nas áreas pobres de Salvador, cresce o número de mães negras e solteiras, a parcela da população que recebe os menores salários da sociedade.
REFORMAS – Doutora em ciências sociais pela Ufba, Ângela Borges, coordenadora do mestrado em Políticas Sociais e Cidadania da Ucsal, estudou as mudanças ocorridas na capital baiana com as reformas do mercado de trabalho na década de 90. Sua tese aponta um impacto “devastador”: 44,8% dos soteropolitanos ganha a vida sem vínculos formais.
Em Salvador, cidade de exclusão social histórica e incapacidade contínua de empregar a população, as reformas que flexibilizaram as relações de trabalho tornaram os cidadãos mais frágeis diante dos riscos da vida, ao mesmo tempo em que diminuíram os salários. Segundo a Pesquisa de Emprego e Desemprego (Dieese/Seade), a renda média mensal em Salvador caiu de R$ 965, em 1998, para R$ 798, em 2004. “A desproteção do passado era vista como resquício de um atraso que seria ultrapassado pelo desenvolvimento. Agora, vemos a desproteção nascer no próprio coração da economia capitalista”, diz Ângela.
A perda do emprego tem conseqüências psicológicas e sociais fortes, causando no indivíduo a sensação de perda da utilidade social, que, por sua vez, relacionam-se com o aumento da criminalidade e de atitudes autodestrutivas. “Em outras palavras, a cidade esgotou suas formas de absorção de novas massas de trabalhadores. Essa situação, somada ao acúmulo de pobreza associada à ocupação desordenada, tem criado um ambiente degradado e violento que urge ser enfrentado”, escreveram os organizadores do “Atlas da Exclusão Social no Brasil” (Editora Cortez), Marcio Pochmann e Ricardo Amorin.
CALDEIRÃO – O Centro de Estudos e Ação Social (Ceas), entidade ligada à Companhia de Jesus, desenvolve há 36 anos um trabalho de assessoria às lutas pela terra no campo e na cidade. O sociólogo José Maurício Daltro, coordenador das atividades de assessoria urbana, que envolvem comunidades como a Gamboa de Baixo, Recanto Feliz, Marechal Rondon e Alto das Pombas, afirma que os cidadãos procuram o Ceas por causa da “não-política” habitacional de Salvador, “aquela que apenas marca com um xis as casas que devem sair das invasões, sem qualquer diálogo com a comunidade”.
Segundo Daltro, existem várias questões que preocupam as classes mais pobres em Salvador, especialmente a violência do Estado, “que faz com que a cidade seja praticamente um caldeirão prestes a entornar”. Ele cita o caso do Centro Histórico, em que as mil famílias removidas na sétima etapa da reforma do Pelourinho foram enviadas para um conjunto habitacional em Coutos, a 20 quilômetros de suas residências originais e de seus locais de trabalho, criando uma situação de exclusão que alguns intelectuais chamam de “gentrificação” – a remoção dos pobres do centro rumo a bairros periféricos, longe do turismo e da vida econômica da cidade.
E o Carnaval reflete fielmente a exclusão: numa comparação entre a sociedade provisória da festa e a realidade, “podemos ver metaforicamente como o povo é espremido pelas cordas e camarotes e como a população é espremida na periferia”, considera Daltro.
Ladrões e muriçocas na invasão do metrô
O simbolismo é inevitável: à sombra do desenvolvimento incompleto do sistema de transporte de massa de Salvador, surge a comunidade Vila Via do Metrô. Seus 360 moradores integram os 21% da população brasileira que vive em localidades associadas à situação de exclusão social: não têm saneamento básico e ganham menos que meio salário mínimo.
Seus cidadãos, instalados há pouco mais de dois anos, reclamam da violência, das doenças de pele, da falta de água, de esgoto e de energia elétrica, e da inexistência de uma ponte adequada para o rio que transborda na época de chuvas, fechando o acesso para a BR-324.
Cachorros magros e sarnentos circulam pelas ruelas de barracos que serpenteiam o morro, junto com as crianças nuas e marcadas por doenças de pele ou mordidas de muriçoca. Lá, no alto, é a Mata Escura; uma mangueira de água desce o morro da cidade “oficial” e abastece a comunidade abaixo, inexistente nos registros, mas na qual os moradores numeraram, cuidadosamente, barraco por barraco.
LADRÃO DEMAIS – Rosilene Silva de Oliveira, 17 anos, veio passar uns dias na Vila com a mãe Elizabete, 55 anos. Nos braços, a filha Keirelene, de apenas dois meses. Rosilene já pensa em voltar para o seu local de origem, a Ilha de Itaparica. “Aqui tem muito ladrão e muriçoca”, diz.
Já Marcilene Santos, 30 anos, lembra da festa no Dia da Consciência Negra, em novembro. Teve música e filme: 2 Filhos de Francisco foi projetado em um telão. Do dia festivo, sobrou a lembrança e alguns panfletos abandonados no chão, onde se lê: “2006: o ano da reparação!”.
Mas, na Vila Via do Metrô é perigoso atravessar a ponte depois das 19 horas, para ir ao mercadinho do outro lado da BR-324. “Tem muito marginal e estuprador, ficamos com medo”, diz Marcilene, que defende sua cidadania diante da urbanidade inversa no lado rico da cidade: “Somos seres humanos também, o sangue que corre em nossas veias é igual ao sangue de quem mora na Pituba e na Barra”. (P.B.)
PATRICK BROCK
Na Vila Via do Metrô, no Calabetão, os barracos de papelão e madeirite dividem o espaço com um rio de esgoto e as muriçocas. Seus habitantes vivem da reciclagem de aço ou papelão e reclamam da falta de segurança, saneamento e empregos. Similar a outras comunidades no Brasil, a vila é um exemplo do apartheid (divisão) que mistura a velha pobreza, histórica, com a nova pobreza, da insegurança social da informalidade e da corrosão salarial. Os dados indicam que 44,09% da população da Região Metropolitana de Salvador tem renda per capita de até dois salários mínimos, enquanto 31,1% estão na linha da pobreza (renda média domiciliar de meio salário mínimo ou sem rendimento, de acordo com o IBGE), ou seja, mais de 980 mil pessoas.
Dados estatísticos e estudos apresentam uma Salvador dividida, de maioria pobre: enquanto a renda média mensal no Bairro da Paz (antiga Invasão das Malvinas e atualmente um aglomerado de casas de alvenaria, sem acabamento) é R$ 214, os moradores do Itaigara (bairro nobre e bem estruturado em termos de serviços públicos e área física) faturam R$ 3 mil. Embora Salvador tenha obtido avanços importantes em saneamento, com cobertura de sistema de esgotos em mais de 70% da cidade, os 50% mais pobres ainda contribuem com 15,7% do total da renda, enquanto os 10% mais ricos contribuem com 12,7% – configurando um quadro de concentração de renda.
O apartheid sóciorracial de Salvador divide a metrópole em esparsos núcleos ricos (ver infografia), convivendo com os núcleos pobres majoritários, onde a população está espremida, com serviços públicos deficitários e índices de violência alarmantes: um exemplo do apartheid, de acordo com o Departamento de Documentação e Estatísticas da Polícia Civil, pode ser aferido pela comparação das estatísticas da violência em dois bairros: em dezembro de 2005 foram cometidos 15 homicídios na região da 5ª Delegacia (Periperi, subúrbio ferroviário, a maior parte da população é pobre), enquanto na 14ª (Barra, de maior faixa de cidadãos ricos apenas um foi registrado. A maioria dos mortos tinha de 15 a 39 anos, era negra e com escolaridade até o nível fundamental. Ao mesmo tempo, nas áreas pobres de Salvador, cresce o número de mães negras e solteiras, a parcela da população que recebe os menores salários da sociedade.
REFORMAS – Doutora em ciências sociais pela Ufba, Ângela Borges, coordenadora do mestrado em Políticas Sociais e Cidadania da Ucsal, estudou as mudanças ocorridas na capital baiana com as reformas do mercado de trabalho na década de 90. Sua tese aponta um impacto “devastador”: 44,8% dos soteropolitanos ganha a vida sem vínculos formais.
Em Salvador, cidade de exclusão social histórica e incapacidade contínua de empregar a população, as reformas que flexibilizaram as relações de trabalho tornaram os cidadãos mais frágeis diante dos riscos da vida, ao mesmo tempo em que diminuíram os salários. Segundo a Pesquisa de Emprego e Desemprego (Dieese/Seade), a renda média mensal em Salvador caiu de R$ 965, em 1998, para R$ 798, em 2004. “A desproteção do passado era vista como resquício de um atraso que seria ultrapassado pelo desenvolvimento. Agora, vemos a desproteção nascer no próprio coração da economia capitalista”, diz Ângela.
A perda do emprego tem conseqüências psicológicas e sociais fortes, causando no indivíduo a sensação de perda da utilidade social, que, por sua vez, relacionam-se com o aumento da criminalidade e de atitudes autodestrutivas. “Em outras palavras, a cidade esgotou suas formas de absorção de novas massas de trabalhadores. Essa situação, somada ao acúmulo de pobreza associada à ocupação desordenada, tem criado um ambiente degradado e violento que urge ser enfrentado”, escreveram os organizadores do “Atlas da Exclusão Social no Brasil” (Editora Cortez), Marcio Pochmann e Ricardo Amorin.
CALDEIRÃO – O Centro de Estudos e Ação Social (Ceas), entidade ligada à Companhia de Jesus, desenvolve há 36 anos um trabalho de assessoria às lutas pela terra no campo e na cidade. O sociólogo José Maurício Daltro, coordenador das atividades de assessoria urbana, que envolvem comunidades como a Gamboa de Baixo, Recanto Feliz, Marechal Rondon e Alto das Pombas, afirma que os cidadãos procuram o Ceas por causa da “não-política” habitacional de Salvador, “aquela que apenas marca com um xis as casas que devem sair das invasões, sem qualquer diálogo com a comunidade”.
Segundo Daltro, existem várias questões que preocupam as classes mais pobres em Salvador, especialmente a violência do Estado, “que faz com que a cidade seja praticamente um caldeirão prestes a entornar”. Ele cita o caso do Centro Histórico, em que as mil famílias removidas na sétima etapa da reforma do Pelourinho foram enviadas para um conjunto habitacional em Coutos, a 20 quilômetros de suas residências originais e de seus locais de trabalho, criando uma situação de exclusão que alguns intelectuais chamam de “gentrificação” – a remoção dos pobres do centro rumo a bairros periféricos, longe do turismo e da vida econômica da cidade.
E o Carnaval reflete fielmente a exclusão: numa comparação entre a sociedade provisória da festa e a realidade, “podemos ver metaforicamente como o povo é espremido pelas cordas e camarotes e como a população é espremida na periferia”, considera Daltro.
Ladrões e muriçocas na invasão do metrô
O simbolismo é inevitável: à sombra do desenvolvimento incompleto do sistema de transporte de massa de Salvador, surge a comunidade Vila Via do Metrô. Seus 360 moradores integram os 21% da população brasileira que vive em localidades associadas à situação de exclusão social: não têm saneamento básico e ganham menos que meio salário mínimo.
Seus cidadãos, instalados há pouco mais de dois anos, reclamam da violência, das doenças de pele, da falta de água, de esgoto e de energia elétrica, e da inexistência de uma ponte adequada para o rio que transborda na época de chuvas, fechando o acesso para a BR-324.
Cachorros magros e sarnentos circulam pelas ruelas de barracos que serpenteiam o morro, junto com as crianças nuas e marcadas por doenças de pele ou mordidas de muriçoca. Lá, no alto, é a Mata Escura; uma mangueira de água desce o morro da cidade “oficial” e abastece a comunidade abaixo, inexistente nos registros, mas na qual os moradores numeraram, cuidadosamente, barraco por barraco.
LADRÃO DEMAIS – Rosilene Silva de Oliveira, 17 anos, veio passar uns dias na Vila com a mãe Elizabete, 55 anos. Nos braços, a filha Keirelene, de apenas dois meses. Rosilene já pensa em voltar para o seu local de origem, a Ilha de Itaparica. “Aqui tem muito ladrão e muriçoca”, diz.
Já Marcilene Santos, 30 anos, lembra da festa no Dia da Consciência Negra, em novembro. Teve música e filme: 2 Filhos de Francisco foi projetado em um telão. Do dia festivo, sobrou a lembrança e alguns panfletos abandonados no chão, onde se lê: “2006: o ano da reparação!”.
Mas, na Vila Via do Metrô é perigoso atravessar a ponte depois das 19 horas, para ir ao mercadinho do outro lado da BR-324. “Tem muito marginal e estuprador, ficamos com medo”, diz Marcilene, que defende sua cidadania diante da urbanidade inversa no lado rico da cidade: “Somos seres humanos também, o sangue que corre em nossas veias é igual ao sangue de quem mora na Pituba e na Barra”. (P.B.)
Fonte: A Tarde

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